O mito da Articaína: o anestésico “perfeito”

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Difusão nos tecidos

Por possuir grande solubilidade lipídica (1), relata-se que a articaína possui maior difusão nos tecidos, o que pode representar uma área maior dissipação do anestésico, tanto nos tecidos moles tanto como no tecido ósseo. Esta propriedade tem levado alguns autores a sugerirem o uso em crianças, onde por conta das características do osso menos denso, mesmo em mandíbula, pode-se evitar a necessidade de bloqueio no nervo alveolar inferior (2).

Testou-se (3) a anestesia local pra exodontia de pré-molares superiores utilizando apenas infiltrações de articaína na vestibular em um grupo e em outro grupo infiltração vestibular + infiltração palatal de lidocaína.

Percebeu-se que em situações como essa, a anestesia com articaína pode tornar desnecessária a infiltração palatal, em virtude uma potencial disseminação anestésica infiltrada na vestibular até a região palatina.

Porém ainda não se conseguiu comprovar esse real efeito in vivo.

Após infiltração de articaína na região vestibular maxilar se fez ressonância magnética e não foi possível evidenciar a solução na região palatal(4). A distribuição e absorção in vivo da articaína obedeceu o mesmo comportamento da lidocaína após o bloqueio do nervo alveolar inferior(5).

Além de que, comprovou-se clinicamente que extrair molares superiores sem a necessidade de infiltração palatina não é exclusividade da articaína, pois se consegue o mesmo sucesso utilizando a lidocaína(6, 7), portanto, essas suposições sobre o real potencial de difusão ser uma característica superior da articaína ainda permanece controverso.

Articaína é superior no bloqueio do nervo alveolar inferior?

Apesar das inúmeras opiniões empíricas em relação a articaína, o que temos de evidência até o momento em relação a essa solução anestésica é:

Não existe vantagem ao utilizar articaína para bloqueio do nervo alveolar inferior(8), e somado ao fato de haver autores alegando aumento do risco de parestesia(9-13), não se pode alegar que a articaína é vantajosa para realização do bloqueio do nervo alveolar inferior. Porém, caso após o bloqueio do nervo alveolar inferior seja necessário anestesias infiltrativas na mandíbula, a articaína apresenta melhor desempenho(8, 14).

Apesar de não ser consenso, existe evidência relatando a superioridade da articaína em anestesias infiltrativas(15-17), porém quando os dentes maxilares apresentam pulpite, não existe diferença(8).

Outro aspecto importante a ser observado é a que existem ainda poucos estudos comprovando a segurança da articaína para ser alcalinizada com bicarbonado de sódio em relação a vasta gama de estudos sobre a lidocaína.

Dose máxima

A dose máxima de articaína é 7mg/Kg mas como ela é comercializada a 4% a dosagem máxima representa uma diminuição substancial no número de tubetes passíveis de serem administrados com segurança, se compararmos a lidocaina ou mepivacaína. Exemplificando: em um paciente com 60 Kg podemos utilizar por volta de 11 tubetes de mepivacaína ou lidocaína com epinefrina 1:100.000, já utilizando articaína, a dose máxima é por volta de 6 tubetes anestésicos.

Resumindo, a articaína é uma excelente opção para anestesias infiltrativas e quando a volume anestésico a ser empregado é entre baixo a moderado.

Bibliografia

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7. Yadav S, Verma A, Sachdeva A. Buccal injection of 2% lidocaine with epinephrine for the removal of maxillary third molars. Anesth Prog. 2013;60(3):95-8.

8. Kung J, McDonagh M, Sedgley CM. Does Articaine Provide an Advantage over Lidocaine in Patients with Symptomatic Irreversible Pulpitis? A Systematic Review and Meta-analysis. J Endod. 2015;41(11):1784-94.

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14. Ashraf H, Kazem M, Dianat O, Noghrehkar F. Efficacy of articaine versus lidocaine in block and infiltration anesthesia administered in teeth with irreversible pulpitis: a prospective, randomized, double-blind study. J Endod. 2013;39(1):6-10.

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17. Luqman U, Majeed Janjua OS, Ashfaq M, Irfan H, Mushtaq S, Bilal A. Comparison of articaine and lignocaine for uncomplicated maxillary exodontia. J Coll Physicians Surg Pak. 2015;25(3):181-4.